Poteiro, Antonio

Antonio Batista de Souza foi um pintor e ceramista conhecido como um dos grandes representantes da arte naïf brasileira. Sua obra caracteriza-se pela abundância de personagens e detalhes ornamentais, explorando temas sagrados e profanos, numa linguagem que mistura elementos bíblicos, folclóricos, cotidianos e imaginários.

Viveu em Santa Cristina da Pousa até os primeiros anos de vida, mudando-se para o Brasil com a família. Filho de artesãos, perdeu a mãe aos oito anos e saiu de casa aos 16, morando em cidades como Uberlândia (MG) e na Ilha do Bananal (TO) até se estabelecer em Goiânia (GO). Trabalhou como cisterneiro, padeiro, cozinheiro e faxineiro antes de começar a produzir potes de barro. A experiência com cerâmica utilitária o levou a dominar o material e a técnica que mais tarde aplicaria em suas esculturas. Suas primeiras tentativas de criar imagens figurativas foram desafiadoras, mas o contato com a pesquisadora Regina Lacerda (1921-1992), que incentivou o artista a assinar suas peças e adquiriu obras para museus, trouxe reconhecimento ao seu trabalho. Na década de 1970, com o apoio de artistas como Siron Franco (1947) e Cleber Gouvêa (1942-2000), Poteiro também começou a pintar, o que expandiu seu público e sua projeção nacional.

Os temas de Poteiro, tanto em cerâmicas quanto em pinturas, refletem o imaginário popular, a religiosidade e a vida cotidiana local. Ele representa celebrações como a Cavalhada de Pirenópolis e a Festa do Divino, eventos bíblicos como a criação de Adão e Eva e a história dos Três Reis Magos, além de figuras de santos, demônios, cenas de circo, brincadeiras de infância e jogos de futebol. Seu trabalho aborda temas místicos e sociais de forma lúdica, com uma linguagem visual que se afasta das convenções da arte clássica e moderna. As obras possuem um forte apelo narrativo, com cenas detalhadas e uma estética barroca.

As esculturas em cerâmica destacam-se pela superfície texturizada e detalhada, representando figuras e cenas em estruturas circulares densamente povoadas por pessoas e animais. Em A Ecologia, por exemplo, um círculo de figuras indígenas na base é seguido por outra fila de personagens, com uma ave no topo simbolizando proteção. Como apontado pelo crítico Frederico Morais (1936), a acumulação de figuras lembra os tímpanos das igrejas românicas e góticas.

Poteiro também criou peças de figuras únicas, especialmente imagens de santos e representações divinas, como Deus-balança, Deus-tartaruga e Deus-amor. Essas figuras possuem um aspecto rústico, com expressões caricaturais e traços esculpidos em alto-relevo. Em Nossa Senhora Karajá, ele esculpe a santa com um corpo e turbante de folhas, segurando uma criança e cercada por crianças em uma ciranda. A partir dos anos 1970, começou a pintar algumas de suas esculturas, como em Jesus e os Santos (1976).

Nas pinturas, Poteiro evitava o uso de perspectiva, enfatizando a bidimensionalidade. Trabalhando com as duas mãos, ele iniciava a obra com uma cor de fundo e, em seguida, distribuía personagens e objetos, finalizando com os detalhes. Apesar de sua técnica intuitiva, as composições são organizadas de forma simétrica e meticulosamente planejadas, com repetição de figuras em disposições horizontais ou circulares.

Na obra A Semana Santa em Goiás (1980), Poteiro divide a tela em três seções que apresentam cenas distintas: a Procissão do Fogaréu, o nascimento de Jesus e a fuga para o Egito, todas dispostas de forma simétrica, reforçando a coesão da narrativa.

Considerado um dos artistas mais autênticos do Brasil, Poteiro realizou diversas exposições individuais e suas obras fazem parte de importantes coleções públicas e privadas. Sem seguir escolas ou tradições artísticas específicas, ele desenvolveu uma linguagem única que reinventa temas religiosos, folclóricos e imaginários, marcando a arte de Goiás com suas cerâmicas e pinturas ricas em detalhes.

Poteiro, Antonio