(Rio de Janeiro, 1923 – 1973)

Série Bichos

Óleo s/ tela, 131 x 152 cm,

ass. superior direito, dat. 1962

Biografia

Pintor, gravador, desenhista, professor. Atuando de forma intensa no meio artístico, formando inclusive outros artistas, Ivan Serpa transita, desde o início de sua carreira, entre o figurativismo e a arte concreta.

Começa a pintar no início dos anos 1940. Entre 1946 e 1948, estuda pintura, gravura e desenho com Axl Leskoschek (1889-1975), no Rio de Janeiro. Realiza trabalhos figurativos com pouca preocupação temática ou literária. Toma distância das abordagens da pintura acadêmica e de artistas do modernismo nacionalista, como Candido Portinari (1903-1962) e Di Cavalcanti (1897-1976), e se interessa pela estrutura da composição e pelo ritmo das formas. Não por acaso, em 1947, realiza sua primeira pintura abstrata: um pequeno guache gestual, ordenado geometricamente.

Nos primeiros anos da década de 1950, o interesse pela abstração se torna sistemático. Recompõe os temas tradicionais da pintura, como a natureza-morta, utilizando cores puras e formas orgânicas. Em outros trabalhos, decompõe referências figurativas em padrões geométricos.

Em 1951, faz a pintura construtiva Formas, onde demonstra seu interesse crescente pela abstração geométrica. O contato com as obras de artistas concretos, como os suíços Sophie Taeuber-Arp (1889-1943) e Max Bill (1908-1984) na 1ª Bienal Internacional de São Paulo (1951) reforça essas convicções. Com Formas, ganha o título de Melhor Pintor Jovem nessa Bienal. Adere ao concretismo no mesmo ano. As referências ao mundo real desaparecem nas telas, bem como a relação harmoniosa entre figura e fundo. As obras são feitas com formas geométricas e planas, organizadas matematicamente.

No ano seguinte, torna-se professor da escola de artes no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ) , onde ministra aulas desde 1949 e exerce, a partir de 1952, sistemática atividade didática, em especial no ensino infantil. De acordo com o crítico Reynaldo Roels (1952-2009), Serpa é “a alma dos cursos da instituição”1. No museu, forma Hélio Oiticica (1937-1980), Décio Vieira (1922-1988), Aluísio Carvão (1920-2001) e muitos outros artistas. Segundo o crítico Mário Pedrosa (1900-1981), nessas aulas “se cultiva a liberdade completa de expressão”2.
Reúne alguns de seus alunos e outros artistas do Rio de Janeiro, como Abraham Palatnik (1928-2020) e Franz Weissmann (1911-2005), e funda, ao lado de Ferreira Gullar (1930-2016) e Mário Pedrosa, o Grupo Frente, integrado por Hélio Oiticica e artistas como Lygia Clark (1920-1988) e Lygia Pape (1927-2004). Apesar de não ser um grupo concreto strictu sensu e de respeitar a liberdade de pontos de vista estéticos, o coletivo abriga a produção concreta carioca, sem tomar partido dogmático em favor do concretismo. Nas exposições do grupo, participam, além dos artistas abstratos do Rio de Janeiro, alguns pintores naïfs e até um aluno das turmas infantis do MAM: Carlos Val (1937). Serpa lidera o grupo até a sua dissolução, em 1956.

Nesse momento, seu trabalho segue os princípios construtivos à risca. Suas formas são geométricas e objetivas, realizadas com materiais industriais e texturas neutras. O título de suas séries revela a impessoalidade dos trabalhos. Chamam-se Faixas ritmadas e Construções. No entanto, dentro desse esquema, o artista se permite pequenas ousadias. Mais heterodoxo que os concretos paulistas, por exemplo, usa cores “pouco objetivas”, como o marrom. Entre o fim dos anos 1950 e o começo dos 1960, seu trabalho ganha novos contornos. Revê sua posição concreta e passa a incorporar elementos menos determinados, como gestos, manchas e respingos de tinta. Em 1960, influenciado pelo desenho infantil3, pinta manchas informes. Com elas, constrói imagens entre a abstração e a figuração. Nessa época, atua como restaurador de livros na Biblioteca Nacional. O trabalho serve como inspiração para a série dos Anóbios, feita entre 1961 e 1962, em que são sugeridas figuras a partir de pequenas marcas coloridas, dispersas e aparentemente aleatórias.

A partir de 1963, seu interesse pela figuração se intensifica. Serpa se identifica com o expressionismo e desenvolve uma figuração gestual, nos moldes do Grupo CoBrA. Essa produção o aproxima dos artistas agrupados sob o rótulo de Nova Objetividade Brasileira. De par com essa nova figuração, realiza trabalhos como a Série Negra, as séries de Bichos e Mulheres com bichos. Algumas obras incorporam letreiros e sobreposição de formas geométricas. A produção é exposta em mostras importantes, como Opinião 65 – evento que marca a difusão de uma nova arte de tendência figurativa, a neofiguração –, Opinião 66 e Nova Objetividade Brasileira.
Em 1967, inicia a série Op Erótica, que marca seu retorno à linguagem construtiva. Interessado na op art, retoma a construção geométrica e os elementos bem definidos. Desenvolve outras séries com essa característica, como Mangueira e Amazônicas. O rigor construtivo é amenizado. As formas se tornam sinuosas e sensuais. As cores são suaves. Essas obras o levam às Arcas, móveis com formas brancas no seu interior. O trabalho com planos op dá origem às pinturas Geomânticas, a partir de 1969, nos quais trabalha até falecer.
Partindo do interesse pela abstração e, em seguida, alternando trabalhos entre a figuração e o concretismo, a trajetória de Ivan Serpa conjuga a busca por ambientes artísticos coletivos, a inclinação pela pesquisa estética e o respeito pela liberdade na criação.

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